Cultura

Deadfish: Há Dez anos de “Zero e Um” segue o chamado a Urgência de estar vivo!

23 Dec 2014   |   comentários

Seja pela atualidade da mensagem ou por sua presença ainda marcante, não parece que se completam 10 anos de “Zero e Um”, dos Capixabas do Deadfish.

Seja pela atualidade da mensagem ou por sua presença ainda marcante, não parece que se completam 10 anos de “Zero e Um”, dos Capixabas do Deadfish.

Graças a esta obra, a banda, encabeçada por Rodrigo Lima, se tornou conhecida amplamente no cenário do Rock nacional entrando nas “paradas” da época. Isto, no entanto, apenas consolidou a posição que, já em 2004, em meio a explosão de bandas do “mercado” divulgadas massivamente por MTV e diversas rádios, como CPM22 ou Pitty, já era considerada o mais importante grupo de Hardcore do país.

Os membros do Deadfish, decidiram nesta empreitada dar um passo audaz para aqueles vindos do cenário underground brasileiro, buscando parceria com produtores internacionais, a grande gravadora Deckdisk e com a distribuição de hit’s e videoclipes na, então poderosa e hoje falida, MTV. Não faltaram adjetivos e críticas de que não “aguentaram a pressão do underground e decidiram se vender”.

Palavras para o ar.
Aos que conhecem a trajetória do DeadFish sabem que não apenas se mantiveram fiéis ao seu espaço mas também as suas mensagens.

E é pela força de sua mensagem que “Zero e Um” deve ser relembrado.

Do ponto de vista técnico, “Zero e Um” deve ser lembrado como um dos grandes do Rock e do Hardcore: Com riffs potentes, quebras megulhantes, uma bateria e baixo carregando o ritmo, guitarras em diálogo intercalado e um vocal visceral, o CD é um soco no estômago, um “baque” e uma explosão de adrenalina.
Ao ouvir suas pernas tomam vida e é impossível não encenar o famoso “bate cabeça” no ar, seja na rua ou em casa.

No entanto, se do ponto de vista técnico chama a atenção a qualidade da produção e a habilidade dos músicos, é o conteúdo de suas mensagens que o torna histórico.

Fazendo alusão ao código Binário mais básico da programação de computadores, Deadfish já dá a letra de qual será o foco de sua preocupação: A crítica ao “senso-comum”, a rotina, a falta de perspectivas, a submissão, aos “velhos valores”.

O CD forma um corpo claramente articulado, com uma faixa dialogando com a outra e formando uma obra que constrói um chamado a juventude: para questionar sua forma de ver a vida, de agir, de pensar, de aceitar a opressão e de colocar em dúvida todos os valores e o que dizem ser real. Destruir o velho “eu” para construir; este é o objetivo.

Em termos históricos, os capixabas do Deadfish se dão a difícil tarefa de, no começo dos anos 2000, fim da “era” da falta de perspectiva que representada pelo grunge, final dos movimentos antiglobalização e começo dos movimentos anti-guerra do Iraque por um lado e, por outro, numa situação de crescimento e “tranquilidade” no primeiro mandato de Lula no Brasil, fazer explodir no ouvido de milhões de jovens que é preciso “implodir tudo o que os oprimia e refazer o seus conceitos”.

E é assim que começa o CD com “A urgência”.
Claramente levantando um chamado, talvez o mais marcante de todas as faixas, pela “Urgência de estar vivo”, iniciam o cenário com a imagem de “você sozinho” nas ruas, na hora da revolução, “pronto pra sujar as mãos”.

Fica claro aqui que, não apenas fazem alusão a revolução como acontecimento social, mas àquela a que cada um de nós tem de passar para construir qualquer mudança na realidade.

Visceralmente, Rodrigo nos chama a “outra forma de agir”, a “desrespeitar nossa constante dor”, no caminho de “assumir... outro valor” e implodir algo que, mais a frente nos ficará claro.

Num diálogo direto a este caminho anunciado, surge a próxima faixa, “Tão Iguais”.

Uma música repleta de diálogos falados e cantados, num ritmo frenético, apresenta uma das mais questionadoras do regime, batendo nos absurdos e impunidades impostos a todo trabalhador e “quem sofre” como aqueles do estado do espírito santo.
Seu objetivo se mantém: “sacudir” o ouvinte a não aceitar e se resignar, os absurdos desta minoria de “apenas dez” e “conceber” que, se não se faz a ruptura, ele pode ser “tão igual aos que tanto odeia”. Um baque, por fim, provoca: Tudo isso vai mudar?

Nesta música, também, se estabelece o diálogo da letra cantada com a falada do “narrador” lembrando os “conselhos” de seu pai sobre honestidade e relembrando como crítica das impunidades deste “país que finge absurdos normais” o caso Araceli e Ana angélica, crianças estupradas e assassinadas por militares na Ditadura Militar.

Avançando para as duas faixas mais famosas, “Zero e Um” e “Queda livre”, avançam na profundidade da mensagem, num movimento que pode ser considerado como um único: Começa o processo de “questionamento e ruptura”.

Em “Zero e Um”, descascando a rotina binária, que afasta os indivíduos da reflexão sobre si mesmos, o CD anuncia o movimento mecânico do sistema em deletar o que se pode sentir e acreditar e de fazer enquadrar a todos numa nova “linguagem adequada”, apenas mais um anúncio no caos da vida enlatada e rotineira.

Já “Queda Livre”, aproveitando a crítica de valores programados, aprofunda o golpe.

Um diálogo entre alguém que avança em sua desconstrução e uma espécie de “narrador-provocador” se estabelece. O narrador provoca o choque ironizando que, nesta caminhada, “você é covarde demais pra entender” e que, se recusando a olhar para sua própria submissão, o que domina é a idéia de “insistir que o erro é dos outros”.

Neste movimento, surge a voz do “indivíduo” em desconstrução, assumindo que “está pronto pra se levantar e caminhar em sua direção” apontando a ruptura e questionamento.

Em “Bem vindo ao clube”, a banda parece ironizar a idéia de um “clube” que prega o “fim”, vive “a intensidade que sempre (se) quis” e culpa o mundo por estar errado, celebrando a felicidade entre “nós”, reforçando o aspecto crítico contra as saídas auto-proclamatórias frente ao sistema e as “verdades e salvações absolutas” em cada pequeno clubinho.

Pulando para “Você”, damos de cara com uma música que a qualquer um seria sobre o amor, uma relação de desejo, sofrimento e tentação, mas que é, no entanto, coroada por uma quebra surpreendente que revela a quem ela se refere: o “Dinheiro”, este objeto de desejo e tentação destrutivos na sociedade do consumo capitalista.

A partir de “Sonhos Colonizados” se forma uma “tríade” de músicas focadas em valores e comportamentos.
Nesta primeira, criticam a “colonização” de desejos vendidos e como marca característica, provocam o ouvinte com a idéia de, sem nem mesmo perceber, todos seus desejos são mercadorias, finalizando com o sarcástico refrão: “O que é você? O que você quer? Seus sonhos colonizados, vão te devorar!” e, novamente, provocando a ação, com “você sabe que pode ser muito melhor; só não quer ver”.

Com “Por não ter o que dizer”, o CD avança para a crítica da hipocrisia e prestigismo do “falar demais”, saber de tudo, mas “não fazer” e de um prestígio que ironizam com a idéia de que “passa do chão”, criticando a cegueira que isto pode gerar, saltando, daí para a “Engarrafamento”.

Nesta a banda dá seu golpe máximo a rotina mecânica do cotidiano.
Denunciando o “engarrafamento” de uma vida “parada em movimento”, pinta o quadro da perda de uma vida, no dia a dia mecânico, buscando atalhos, se movendo, mas parada numa “restrita obrigação”. Claramente fazem alusão a rotina de trabalho e vida em cidades como São Paulo, aonde todos se movem, porém não porque ou como querem, mas obrigados pelas amarras do capitalismo, do emprego, da escola e “obrigações”.

A sequência é “Desencontros”, uma música explosiva que abre caminho a música que mais deixa claro os objetivos da banda capixaba, a “Re-aprender a andar”.

Terminando a primeira com os gritos por “saber a direção”, a segunda lança a resposta. A direção é “reconstruir”, “a duras penas se erguer” e “reaprender a andar”, implodindo- como faz o chamado no começo- “tudo o que os oprimia” e “caminhar para o que virá”.

Já no fluxo final, o CD se torna mais “lógico”: a letra “caminhar para o que virá” se conecta com a música “Siga”, numa ponte para o final que convoca o ouvinte a saber:
- o caminho não está nos céus, no outro ou em Deus , mas em “cada um de nós”, “nos olhos que choram” e na “sensação de felicidade de matar quem te matou”(ou o sistema que nos mata todos os dias) e que basta vermos e usarmos.
Aqui, consolidam a crítica das “salvações” milagrosas das igrejas, seitas ou do consumismo, frente a miséria da vida, formando a ponte que leva à música “TUDO”, coroando esta obra histórica numa das letras mais complexas e tocantes.

Dessa forma, Deadfish proclama que o “show do dia a dia”, que tão firmemente tentaram desconstruir, “não completa mais”, dando sentido a todos os seus chamados, provocações e incitações ao longo das músicas.
Para os capixabas, esta vida, estes valores, este “show”, não vale a ninguém mais, mas, ainda assim, devido a todas as ferramentas, “clubinhos” e valores que criticam em seu albúm, ninguém consegue ver...

Poderia ocorrer que, com uma finalização destas, o pessimismo teria reinado e a mensagem dos capixabas seria a de uma “vida sem saída”. Na última frase, no entanto, nos provocando mais uma vez, como que com um sorriso no rosto, o Deadfish nos faz a última provocação, passando a bola: “E o que mais dizer... e o que mais dizer?”

A cada um cabe responder, mas a nós, após a enxurrada de chamados, metáforas e energia, ressoa apenas uma resposta: “Nada mais a dizer; só agir... e implodir, implodir de novo!!!”

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