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Vale tudo por votos: a esquerda tradicional e sua crescente integração ao regime

26 Jun 2014   |   comentários

Os três grandes candidatos da burguesia alteram seus discursos conforme a necessidade, mas correm todos atrás dos mesmos interesses e financiadores, os bancos, fundos de investimentos, as multinacionais, as gigantes do agronegócio e as bilionárias empresas “campeãs nacionais”.

Todas as pesquisas de opinião mostram como os votantes querem “mudanças”. Esta foi a palavra que Dilma mais repetiu no discurso que fez na convenção do PT que a ratificou candidata. A mesma ladainha repetem Aécio Neves e Eduardo Campos (PSB que conta com Marina e ao mesmo tempo com os reis da soja, mostrando quanto sequer o discurso ambiental de “mudança” este candidato consegue emplacar). Os três grandes candidatos da burguesia alteram seus discursos conforme a necessidade, mas correm todos atrás dos mesmos interesses e financiadores, os bancos, fundos de investimentos, as multinacionais, as gigantes do agronegócio e as bilionárias empresas “campeãs nacionais”.

Nos locais de trabalho nenhum trabalhador fala satisfeito da situação como muitos falavam em 2010 e, até mesmo as pesquisas eleitorais mostram, há uma crescente apatia. O regime político se desgasta com intermináveis escândalos de corrupção e com o flagrante descaso com as reivindicações de salário, transporte, saúde, educação, moradia. Cientes deste perigo da apatia o PT e seus aliados no movimento operário e popular começam a mover suas forças para tentar tornar esta eleição mais “quente” polarizando o jogo entre o “avanço” que eles supostamente representariam e “retrocesso” atribuído ao PSDB.

Não estamos vivendo uma “ofensiva da direita” como querem os petistas e seus jornalistas e intelectuais. Muito pelo contrário, há menos de um ano milhões tomavam as ruas em defesa de transporte, saúde e educação públicos. Este ano a classe operária convulsionou as cidades com grandes greves, começando pelos garis e passando por diversos setores do transporte público.

Estamos em um cenário de grandes possibilidades de avanço na consciência e organização dos trabalhadores e da juventude. É para isto que a esquerda classista e revolucionária deve olhar. Este avanço poderia se expressar em eleger parlamentares em base a agitação e propaganda revolucionária, que fizessem de sua atuação no parlamento verdadeiras tribunas para avançar a luta fora do parlamento. Para isto deveria colocar no centro de suas campanhas políticas a necessidade de organização dos trabalhadores, muito além de qual número digitar nas urnas, a necessidade de varrer a burocracia sindical, recuperar os sindicatos para a luta da classe trabalhadora, e se organizar democraticamente em assembleias, comissões de base e locais de trabalho, o apoio ativo às lutas em curso, a luta pela readmissão dos metroviários, rodoviários e professores punidos por lutar, a luta contra a inflação e por um salário mínimo que ao menos atendesse o que o DIEESE calcula como o valor que cumpre o determinado pela constituição brasileira (hoje em R$ 3079,31). Para isto a esquerda deveria aproveitar o direito de participar das eleições e suas inserções nas TVs e rádios.

Porém, não é isto que está se desenhando. A esquerda tradicional brasileira dá passos de maior integração ao regime político e sindical brasileiro, diversos setores parecem petistas fora do PT. Fora isto, um vale-tudo para eleger deputados que sacrifica qualquer posição classista em nome de interesses eleitorais.

Petistas fora do PT e crescente integração ao regime de dominação de toda esquerda tradicional

Com uma análise completamente destoante da que realizamos aqui, o ex-candidato do PSOL à presidência, Randolfe Rodrigues, analisa em sua carta de afastamento da campanha que haveria uma “ofensiva conservadora no país” e que nem Dilma nem Campos seria capazes de “unir as forças progressistas”, lamentando o fato dele não conseguir fazê-lo. Sedento por um cargo, possivelmente se candidatará a governador no Amapá. Para ele não há classes sociais, burguesia, imperialismo, há “conservadores” e “progressistas”. Seu aliado local, o prefeito Clécio da capital Macapá, atacou a greve de professores municipais e se recusa a cumprir a lei do piso federal para os professores. É como um tucano ou petista que respeita a Lei de Responsabilidade Fiscal, a que deveria chamar “lei do arrocho ao funcionalismo e da péssima educação e saúde para a população”. Este é o “progressismo” da maior figura da maior corrente do PSOL?!

Fora do PSOL, o PCO também se destaca por posições muito similares ao PT em suas avaliações sobre as mobilizações antes da Copa e sobre o julgamento do mensalão. Voltando ao PSOL, da mesma corrente majoritária de Randolfe e Ivan Valente, foi lançado Gilberto Maringoni como candidato a governador do mais importante estado do país, São Paulo. Na mesma semana que assumia sua candidatura Maringoni declarava à Carta Capital, que o inimigo é o PSDB e não o PT, e se orgulhava de ser conhecido como “o mais petista dos militantes do PSOL”. Mas justamente na capital paulista governa o PT e os professores municipais, motoristas e cobradores de ônibus se enfrentaram com o PT. Sua candidatura é ao sabor do petismo paulista e serve de linha auxiliar para atacar Alckmin. Em troca, o PSOL paulista deve ganhar apoio à reeleição de Ivan Valente para o congresso. Surpreendentemente, mesmo com uma candidatura tão à direita, tão petista como Maringoni em SP, o PSTU fechou acordo eleitoral com o PSOL e haverá frente de esquerda neste estado. Todas as intermináveis linhas que o PSTU escreveu contra a falta de programa do PSOL somem quando há algum interesse eleitoreiro em jogo. Buscando um deputado em SP, vale qualquer candidato do PSOL.

Por este caminho de Randolfe, Maringoni, e do PSOL de conjunto, e do apoio do PSTU a Maringoni, vemos uma crescente integração de toda a esquerda tradicional ao regime. Estão na contramão do que ocorre nas ruas e da necessidade de organização dos trabalhadores. Vale tudo para eleger alguém ou ir melhor nas eleições. O que menos importa é o programa e o que os trabalhadores precisam levantar para vencer. Inclusive como se delimitar do PT que governa o país há 12 anos é moeda de troca para esta esquerda, pouco importa.

Não será uma candidatura de Luciana Genro para presidente que mudará este cenário. Diz que quer ser a candidatura que expresse Junho. Mas, com um programa centrado na “mudança da política econômica”, na “reforma política” e em “mais direitos”, Genro se propõe a recauchutar a utopia petista de um suposto capitalismo mais “humano” a ser conquistado pela via das eleições. Como se a experiência com o PT já não mostrasse no que isso termina, o PSOL tenta reacender essas ideias sem nem mesmo a base operária que colocou de pé aquele partido. Como pode querer ser expressão de junho e, em um momento em que dois manifestantes estão presos por protestar, dizer que não é o momento de convocar manifestações? O resultado inexorável é o envelhecimento precoce, de uma proposta política que já bem nova recebeu financiamento da Gerdau e da Taurus, monopólios que não podem mais que estar nas antípodas de Junho.

A fraseologia da campanha nacional do PSOL ou do PSTU pode variar em relação à campanha paulista e de outros estados, mas o objetivo é um só, e nisto se unifica toda a esquerda tradicional brasileira: como conseguir espaços no parlamento e no regime, por fora, e se necessário, contra, as reais necessidades para a organização independente das massas. Com esta esquerda desperdiçamos a oportunidade de usar a politização nas eleições para avançar na consciência e na organização dos trabalhadores e da juventude.

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