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Sobre a morte de Santiago Andrade e a criminalização dos manifestantes

11 Feb 2014   |   comentários

Todo o decorrer dos eventos que levaram a este acidente só aconteceram porque a polícia de Sérgio Cabral quis impedir um novo catracaço.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade decorrente de ferimentos oriundos de um trágico acidente no confronto iniciado pela dura repressão da Tropa de Choque na manifestação de 6/2 abalou todos manifestantes. Tal como os manifestantes que prestaram sua homenagem a ele na manifestação de 10/2 contra o aumento das passagens, prestamos nossa solidariedade a sua família, a seus amigos e colegas de trabalho.

Sua morte é decorrente a violência do Estado na brutal repressão a todas manifestações que por sua vez ensejam a justa resistência e oposição à violência da polícia. Em meio a esta resistência à violência policial um acidente decorrente de uma atitude irresponsável lhe tirou a vida. Agora, este mesmo Estado e a mídia que lhe serve buscam promover uma criminalização de todas manifestações.

O responsável é o Estado e sua polícia

Todo o decorrer dos eventos que levaram a este acidente só aconteceram porque a polícia de Sérgio Cabral quis impedir um novo catracaço. Ou seja, para garantir os lucros da Supervia a tropa de Choque atuou como sempre atua, como cão de guarda dos governos e patrões lançando tiros de bala de borracha e gás lacrimogênio dentro de um ambiente fechado espalhando o pânico e a confusão em toda região. Pânico e confusão esta que tiraram a vida do aposentado Tasman Accioly que morreu atropelado por um ônibus ao cair no chão assustado com a repressão policial e também do cinegrafista Santiago Andrade.

A violência de um Estado onde há milhares de autos-de-resistência a esclarecer, onde ainda não se encontrou o corpo de Amarildo, onde milhares de polícias responsáveis por mortes de negros e pobres nas favelas e por feridos em manifestações seguem impunes. Este estado, seus abusivos aumentos de tarifas por um lado, que inclusive contrariam pareceres técnicos de que as passagens deveriam cair, e por outro lado as regalias de juízes, deputados, governadores e altos funcionárias, as regalias à Eike Batista, Cavendish e outros “amigos do poder” não pode ensejar outra coisa na juventude que ódio. A violência policial presente em cada manifestação desde junho, a impunidade dos repressores para garantir esta ordem à serviço dos capitalistas, da Fifa, dos governos é um dos motores por trás de cada manifestação.

A polícia, treinada como cão-de-guarda, age contra qualquer manifestação como se combatesse "inimigos a eliminar". Desde junho passado vimos essa sanha violenta e assassina, acobertada pelos governadores, comandantes, secretários de segurança, políticos e até mesmo a imprensa. Esta imprensa burguesa - hostil às manifestações operárias e populares - age para "justificar" a violência policial. A população sempre apoiou os manifestantes e repudiou a violência policial. As grandes manifestações de junho foram a resposta popular contra essa polícia.

Esta violência do Estado e cumplicidade da mídia com a mesma não é exclusividade do Rio. Estas duas fatalidades no Rio se somam a outras no país. Porém sem a mesma atenção que foi dada ao cinegrafista. Nenhuma importância foi dada à morte do jovem trabalhador Douglas Henrique em BH que morreu ao cair de um viaduto quando tentava se proteger da polícia e também é com pouco alarde que são noticiados os feridos em manifestações. Inclusive à bala como ocorreu em manifestações no Rio e recentemente em São Paulo.

Por isto devemos repudiar energicamente todas tentativas de criminalização dos manifestantes que está ocorrendo. O estado e seus governantes são os responsáveis de cada ferido e morto. É urgente colocar de pé uma grande campanha nacional pelo fim da repressão às manifestações e a eliminação de todos os processos contra lutadores.

Não à criminalização dos manifestantes

Na corrupta casa de privilegiados chamada ALERJ tramita um projeto para instalar uma CPI do vandalismo. Nunca se investiga os criminosos contratos de Cabral com Cavendish e a Delta, ou as criminosas concessões da Supervia, Barcas, Metrô, que inclusive tem a esposa de Cabral como advogada. Porém, para punir quem desafia sua ordem, uma ordem para garantir esta copa do mundo para a FIFA e os ricos, para garantir aumento das passagens (e lucros patronais) este Estado é eficiente.

Beltrame, responsável por instaurar a ditadura nas favelas através das UPPs agora quer proibir o uso de máscaras de gás em manifestações. Ou seja, que os manifestantes morram debaixo dos gases asfixiantes. Para este tipo de lei estes parlamentares e governantes tem toda a presteza. Já para responsabilizar e punir algum policial pela violência nas manifestações há total desleixo, ninguém foi responsabilizado até o momento. A mesma mídia se silencia sobre os justiceiros que matam negros no Flamengo e na Baixada não fala de outra coisa que prender supostos Black Blocs.

É preciso derrotar esta tentativa de criminalização das manifestações que tem como interesses defender a continuidade do aumento das passagens, esta copa para ricos e proibir greves dos trabalhadores na Copa! Os parlamentares se reúnem durante horas para garantir leis que impeçam os trabalhadores e a juventude de se manifestar e para criminaliza-los. Tempo para refletir soluções para os problemas gritados nas ruas desde junho em todo o Brasil eles nunca têm. Por isso é preciso organizar o movimento nacionalmente, coordenar as lutas com comissões em cada, escola, faculdade, local de trabalho, para a partir de nossa organização arrancar nossas demandas baseada na auto organização dos trabalhadores e estudantes. Organizar desde a base para garantir nossas reivindicações e trazer abaixo a lei geral da Copa e todas outras leis repressoras!

Esclarecer de forma independente o acidente que tirou a vida de Santiago

Fruto da repressão policial para garantir os lucros da Supervia ocorreu um grande conflito na região da central do Brasil. Nele pessoas presentes no ato utilizaram de forma irresponsável um foguete que resultou neste trágico acidente. Não concordamos com esta utilização irresponsável do foguete que poderia ter tirado a vida de qualquer pessoa presente, como ocorreu. Porém tampouco concordamos com toda a campanha de criminalização em curso. Esta fatalidade foi um evidente acidente e agora buscando ter punições exemplares para assustar manifestantes estes indíviduos estão acusados de homicídio e não de alguma outra pena condizente com um acidente.

Há várias circunstâncias a esclarecer no acidente. Um dos acusados prontamente aceitou virar “colaborador da polícia”, com semelhante atitude, se ele era um verdadeiro manifestante ou não, não podemos trata-lo da mesma forma. Ele está conscientemente trabalhando a favor dos governos, polícias e políticos patronais e contra todos os que saem às ruas contra o desperdício das obras da Copa e por melhores condições de serviços públicos. Dessa maneira, não pode ser considerado um ativista do movimento. Sua escolha de um advogado ligado a deputados milicianos que foram cassados, e este mesmo advogado tentar criar fatos políticos contra Marcelo Freixo (PSOL) sem prova alguma como na acusação dele estar por trás de um dos supostos envolvidos no acidente acrescenta dúvidas sobre este acidente, sobre os envolvidos no mesmo e seus advogados.

Todos sabem, e há relatórios oficiais, de que a polícia infiltra pessoas em manifestações em todo o país, não há nenhuma certeza que estes indíviduos presentes na manifestação não seriam policiais do serviço reservado. Também não faltam denúncias que políticos patronais, como Garotinho, também infiltram manifestações colocando provocadores nas mesmas. É preciso apurar as circunstâncias deste acidente bem como as pessoas envolvidas uma vez que pairam muitas dúvidas, inclusive pelo comportamento irresponsável na forma de manusear o foguete, comportamento este que nunca se viu nas inúmeras manifestações no Rio desde junho. Se alguma destas suspeitas se confirmar a responsabilidade do Estado pela morte de Santiago é ainda mais direta.

Não confiamos na polícia civil para investigar o ocorrido. A mesma polícia que deixa milhares de autos-de-resistência sem esclarecimento e que agora quer iniciar uma caça as bruxas não pode ser quem investigue o ocorrido. Estes supostos ativistas podem falar que qualquer pessoa é responsável por algo e automaticamente começarão inquéritos, como agora está ocorrendo com a ativista Sininho por supostamente ter feito uma ligação ao advogado de um dos acusados.

Por todos estes elementos defendemos que o ocorrido seja apurado por uma comissão independente de investigação, integrada por organizações de direitos humanos, centros acadêmicos e outras organizações de juventude e por sindicatos. Não será pelas mãos de uma polícia corrupta e assassina, ou de um parlamento defensor de milicianos, de repressão a manifestações, que chegaremos à verdade.

Fruto desta campanha de perseguição aos manifestantes utilizando-se deste acidente também achamos necessário abrir um debate entre os manifestantes. Devemos organizar nossas ações preservando nossa segurança, mas também para desmascarar a repressão e violência contra o livre direito de manifestação e luta. Colocamos este debate para aqueles que aderem à tática Black Bloc, e aos distintos movimentos que têm estado presentes nas ruas reflitam e debatamos em fóruns unitários os objetivos das manifestações e quais táticas de autodefesa coletiva devemos adotar para que os atos e marchas consigam o objetivo de protestar, defender-se da repressão e ganhar o apoio popular para propostas que atendam as reivindicações surgidas em junho - transporte, educação, saúde, moradia.

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