Internacional

DEBATE SOBRE A SITUAÇÃO INTERNACIONAL

Uma crise histórica

21 Dec 2011   |   comentários

O informe de Christian Castillo partiu da reafirmação do caráter histórico da crise capitalista que já está em seu quarto ano, ao tomarmos como referência a queda do Lehman Brothers em setembro de 2008.

Ainda que o capitalismo tivesse muitas crises ao longo de sua história, a única referência que temos de uma crise desta magnitude, na qual se agrava o conjunto das contradições econômicas, sociais e políticas do sistema capitalista, foi à crise da década de 30 do século XX.

Isto não quer dizer que a crise atual seja uma repetição mecânica da grande depressão, mas sim que estamos frente a uma crise em que o capitalismo se choca permanentemente com seus próprios limites e contradições, onde as medidas tomadas aparentam ser capazes de proporcionar certo respiro, mas em seguida mostram-se completamente impotentes para reverter a situação. A crise atual teve um primeiro episódio com epicentro nos EUA,quando Lehman Brothers caiu, produzindo um cenário de recessão generalizada entre o último semestre de 2008 e o primeiro de 2009. A resposta dos distintos Estados a este primeiro momento foi endividar-se através da emissão de títulos e alocar fundos bilionários para salvar e evitar a falência dos bancos e com isso uma bancarrota geral do sistema capitalista internacional, uma depressão "global". O que estamos vendo agora é a expressão dos limites que teve esta política de resgate dos bancos e as suas conseqüências, com um salto qualitativo no nível de endividamento dos distintos Estados, que em alguns casos possuem dívidas que chegam a 80, 100, 150, até 200 por cento do PIB de cada país.

O "episódio europeu" da crise

Ainda que nos EUA a crise continue e possivelmente se agrave, hoje estamos vivendo o "episódio europeu" da crise. Isto foi visto na reunião de cúpula da União Européia em Bruxelas, onde há uma série de debates e discussões, como a enfrentada pela Grã-Bretanha, devido à solução proposta pela Alemanha com o apoio da França e a maioria dos países do bloco. Enquanto o motivo da oposição britânica é preservar os interesses do capital financeiro de seu país, o acordo proposto implica aprofundar a linha recessiva e deflacionária frente à crise. O acordo da reunião é salvar os bancos (que são majoritariamente alemães e franceses) e “apertar o torniquete” sobre o conjunto dos Estados, forçando estes a realizar ataques ainda maiores em cima do movimento de massas.

Contudo, é muito difícil ou praticamente impossível, que esta resolução, na qual todos os países devem fazer ajustes como os realizados na América Latina no final dos anos 1990, permita a alguns países baixar o déficit, que em vários casos supera o 10% a solo 3% do PIB. São metas muito difíceis de atingir. Na verdade, podem levar ao default aberto e à saída de vários países do euro, o que implicaria o fracasso do projeto mais ambicioso do imperialismo mundial do pós-guerra, que foi a construção da União Européia sob a moeda única.

A ideologia predominante até pouco tempo atrás, inclusive adotada por setores majoritários da esquerda mundial, afirmava que a UE era um tipo de "supra-estado" que expressava um triunfo estratégico para o capitalismo. Nossa corrente discutiu que essas tendências eram conjunturais e que as contradições entre as diversas burguesias imperialistas, que em momentos de prosperidade alguns consideravam superadas, iriam estourar de maneira explosiva em momentos de crise. Hoje a discussão é a possibilidade de uma implosão do euro e da própria UE.

Os governos "técnicos" e a tendência ao bonapartismo

Esta crise já tomou dimensões políticas. Em uma mesma semana, Itália e Grécia viveram um tipo de "golpe de estado financeiro", Papandreu foi substituído por Papademus e Berlusconi por Monti. Estes supostos governos "técnicos" respondem ao Banco Central Europeu. Como vínhamos apontando, estes governos de "unidade nacional", que contam com o apoio das principais forças políticas burguesas, expressam uma tendência bonapartista de concentração de poder, onde o jogo parlamentário entre oposição e governo dilui-se e os principais partidos burgueses do país passam a ser o apoio e a garantia de que estes planos de ajuste serão aplicados. Isso pode dar certa força conjunturalmente, porque o conjunto do regime torna-se responsável pelos ajustes, mas em médio prazo representa muitas contradições. A mais importante é que se desenvolve a resistência a tais planos de ajuste, o ódio popular se dirigirá contra o conjunto do regime burguês.

Polarização e resistência

O que se vê na Europa é uma política de enorme disciplina ao plano do imperialismo alemão. Isto provoca tendências à polarização. Por um lado, governos mais de direita, que assumem para impor tais planos, sejam por meio de eleições ou como "governos técnicos"; por outro lado, uma tendência às greves gerais e ações do movimento de massas (Grécia, Portugal, Itália), ainda que sem a radicalidade suficiente para derrotar estes planos, relacionados à política colaboracionista da social-democracia, que dirige grande parte dos sindicatos. Como parte desta resistência emergiu movimentos como o dos indignados e as tendências à radicalização na juventude.

Ao mesmo tempo surgiram tendências à direita que podemos chamar de "soberanistas", nas quais se pode citar desde grupos fascistas anti-imigrantes, até partidos burgueses tradicionais que se assumem como "eurofóbicos" e defendem uma variante utópica "capitalista nacional" como saída. Frente a estas tendências, a tarefa estratégica para a classe trabalhadora é a luta pelos Estados Unidos Socialistas da Europa.

A crise está chegando à China

A China, que atuou com certa contra-tendência à crise das economias centrais, no último período está começando a sofrer os golpes da crise. A dinâmica exportadora está em franco retrocesso. Há certa reconversão rumo ao mercado interno, mas muito limitada frente à necessidade de se manter altas taxas de crescimento. Está ocorrendo outro fenômeno, que é o "deslocamento" de empresas de Xangai para o oeste, buscando reduzir custos. Esta política das multinacionais é o motor da mais recente onda de greves.

Todos os prognósticos indicam que durante 2012 a situação de "dissociação conjuntural" tenderá a se esgotar, o que trará à luz as contradições reais do "milagre chinês". Esta situação começa a repercutir na América Latina, uma expressão desta mudança de tendência é a desaceleração da economia do Brasil, o que impacta diretamente sobre a economia argentina, em primeiro lugar na indústria automotiva, onde o Brasil é o principal mercado das exportações argentinas do setor. Somado a isso, começou um declínio no preço das matérias primas, todavia, não é completamente abrupto, mas entre 15% e 20% em algumas das principais matérias primas exportáveis. Consolidando-se este cenário, no qual a economia chinesa cresça somente cerca de 7%, seu impacto será sentido no conjunto da economia mundial.

Egito, um ponto de inflexão na luta de classes

2011 foi um ano em que a luta de classes deu um salto não apenas nos países centrais, mas também com a chamada "primavera árabe". Esta onda de levantes tem seu pico no Egito, onde se abriu um processo revolucionário que, por sua profundidade, dificilmente poderá ser contido com medidas de desvio sem mediar derrotas contra-revolucionárias das massas.
Para comparar com outros processos históricos, podemos dizer que no Egito abriu-se uma etapa parecida com a que se abriu no "Cordobazo" na Argentina em 1969. Por seu peso demográfico, por sua classe trabalhadora, por sua importância econômica e geopolítica, o Egito é um país chave da região. Desde a assinatura dos acordos de Camp David e do tratado de paz com o Estado de Israel, o Egito vem sendo uma peça chave do domínio imperialista na região, atuando como salvaguarda da segurança do Estado sionista contra o povo palestino, sendo assim o segundo recebedor de ajuda financeira dos Estados Unidos. O impacto de uma revolução no Egito pode ser comparado com o que foi a revolução iraniana de 1979, que terminou com o regime do xá Reza Pahlevi, um dos principais braço armado dos EUA no Oriente Médio.
Em uma perspectiva mais conjuntural, a Irmandade Muçulmana ganhou nas eleições nas quais participou 62% da população, que não é muito grande, mas indica que a contenção foi um aparente, todavia, a grande contradição é que estamos em meio a uma crise capitalista monumental, que foi o motor do processo egípcio devido a alta dos preços dos alimentos. O Egito não é um país petroleiro, depende de outras atividades como o turismo e, além disso, é importador de matérias primas. Por isso, e pela continuidade de vários aspectos ditatoriais do regime, é difícil conter as demandas profundas das massas.
Os fenômenos juvenis e a emergência do movimento estudantil
Um dos fenômenos juvenis mais sintomáticos, por ocorrer no coração do sistema capitalista mundial é o Occupy Wall Street (OWS) nos Estados Unidos. Embora não seja massivo, sem dúvida expressa um início de polarização pela esquerda, frente ao surgimento do Tea Party, pela direita. É um movimento heterogêneo, mas que possui uma significação política importante e ocorre sob um governo democrata,com Obama tentando utilizar-se do movimento a o mesmo tempo que o critica. Diferentemente dos indignados no Estado espanhol, que tenderam ao esgotamento, esse é um fenômeno que persiste.
Outro elemento importante é a emergência do movimento estudantil em diversos países. Na América Latina ocorreram dois movimentos muito fortes contra os dois sistemas educacionais mais mercantilizados do continente, que são o da Colômbia e o do Chile. Na Colômbia os estudantes conseguiram obter uma vitória parcial e no Chile a situação encontra-se aberta no tocante às demandas do movimento,para além dos resultados, foram ambos massivos e importantes, com ocupações, desenvolvimento de greves estudantis de grande envergadura.
Em São Paulo tivemos uma luta mais de vanguarda, ainda que com assembléias bastante numerosas, por lutar contra a polícia dentro da Universidade de São Paulo, onde interviram nossos companheiros da LER-QI. Peru é outro país onde ocorreu intervenção do movimento estudantil.
Nos países centrais, o movimento estudantil saiu contra os planos de ajuste, com distintos níveis de participação e protagonismo, no Estado espanhol, na Itália, no Canadá, nos EUA, na Alemanha, na qual participaram nossos companheiros do grupo RIO e, claro, na Grécia. Esta tendência à intervenção do movimento estudantil, que atua como caixa de ressonância das contradições sociais pode estar prenunciando novos fenômenos de radicalização política.

A crise capitalista e as tarefas dos revolucionários

Na crise capitalista estamos vendo o desbarranque, estancamento e/ou implosão de todas as variantes das "novas esquerdas" impulsionadas por algumas organizações de origem trotskista que buscavam ocupar espaços eleitorais frente a crise da social-democracia. Estas iam desde partidos comuns entre reformistas e revolucionários, até alianças eleitorais policlassistas e partidos anticapitalistas sem delimitação estratégica. Alguns exemplos desta crise são o estouro da coalizão RESPECT no Reino Unido, a crise da Refundação Comunista na Itália e a possível divisão do Novo Partido Anticapitalista na França, com seu núcleo dirigente tradicional partido ao meio.

As alas mais oportunistas do NPA colocam como saída o aprofundamento de um caminho que os leva a confluir com variantes reformistas de esquerda. Por outro lado, nossos companheiros que integram a Corrente Comunista Revolucionária (como parte da Plataforma 4 do NPA) vem dando uma luta política pela necessidade de retomar a estratégia da revolução socialista, com o que tem confluído com setores operários do NPA.

A Fração Trotskista - Quarta Internacional vem combatendo essa política de adaptação e, apesar de ser uma tendência minoritária, ali onde a luta de classes nos oferece uma oportunidade, temos demonstrado que é possível intervir em uma perspectiva revolucionária. Vale como exemplo a ação de nossos companheiros do Classe contra Classe no movimento do 15M espanhol ou a destacada intervenção dos companheiros do PTR na luta estudantil do Chile.

A partir da Fração Trotskista - Quarta Internacional colocamos que a única possibilidade que a esquerda revolucionária possa cumprir um papel decisivo é construir fortes partidos operários revolucionários e lutar pela reconstrução da IV Internacional. Para isso, é muito importante não só manter um ponto de vista internacional, ou seja, ter uma análise, mais precisa possível da situação internacional e das tendências da luta de classes, como, sobretudo, definir onde podemos avançar qualitativamente em forjar uma organização revolucionária que possa incidir nos acontecimentos. Nessa tarefa, o PTS tem um grande desafio pela frente.

Debate sobre o "equilíbrio capitalista"

Um dos debates mais importantes sobre a caracterização da situação internacional foi se já podemos afirmar que finalizou definitivamente o equilíbrio capitalista que, com crises, se tem estabelecido desde o pós-segunda guerra mundial. Para além de uma rica discussão, o Congresso votou como seguinte definição de síntese que o equilíbrio capitalista construído no pós-guerra se recompôs após o ascenso revolucionário dos anos 70 por meio da chamada "ofensiva neoliberal", produzindo fortes derrotas à classe trabalhadora mundial, incluindo a restauração capitalista na URSS, nos países do Leste Europeu e na China. A crise capitalista de caráter histórico que vivemos desde 2007 - 2008 (manifestada inicialmente com a queda das hipotecas sub-prime e a quebra do Lehman Brothers) implica que tal equilíbrio entrou em crise, atualizando e fazendo mais imediata as tendências da época de crises, guerras e revoluções, como já expressa não só a profundidade dos desequilíbrios econômicos que estamos vivendo senão também as tendências a deslocação da União Européia e múltiplas situações de crises políticas e o processo revolucionário iniciado no Egito e outros acontecimentos da luta de classes.

A crise capitalista e o declínio dos Estados Unidos

O companheiro Emílio Albamonte agregou ao informe de Castillo que, do ponto de vista geopolítico, o fato mais importante que terá consequências na próxima etapa é a aceleração do declínio dos Estados Unidos como potência imperialista hegemônica. Esse declínio, que vem desde anos, mas que deu um salto com o fracasso da política de guerra de Bush no Afeganistão e no Iraque, não implica de nenhuma maneira uma retirada pacífica da América do Norte do centro da cena mundial.

Um sintoma disso é a instalação de 2.500 soldados norte-americanos em Darwin, Austrália, anunciada por Obama em sua recente passagem por diversos países da Ásia-Pacífico. Este é um indício de que os Estados Unidos tem definido uma política para conter o avanço da China, assinalando que estrategicamente a política exterior e militar do imperialismo ianque está orientada para evitar que surjam potências competidoras que disputem o seu domínio em regiões chaves para os seus interesses nacionais, ou pior ainda, mundiais.

Do nosso ponto de vista, vemos com dificuldade que a China possa transformar-se em um país imperialista, mesmo que seu PIB a coloque hoje como a segunda economia do mundo. Além de ainda não ser claro que conseqüências terá a crise capitalista, os marxistas sabem que a medida do PIB pode levar à distorções. A China está muito atrás dos Estados Unidos ou da Europa quando se mede o PIB per capita, além de ter uma estrutura social profundamente desigual, uma profunda divisão entre as cidades e o campo, onde ainda vivem 900 milhões de camponeses, e já está sentindo os efeitos da crise internacional em suas exportações e com conflitos operários crescentes.

Partindo dessas considerações, e de que até o momento os Estados Unidos conta com aliados tradicionais como Japão e Coréia do Sul, é provável que na Ásia, relacionado com a emergência da China, surjam novos agrupamentos e alianças que esboçarão novas rivalidades e conflitos interestatais, como indicam as declarações da Indonésia e outros aliados norte-americanos que se opõem a um aumento da presença militar norte-americana e vêm fazendo acordos e negócios com a China.

Redobrar os esforços pela reconstrução da IV Internacional

Albamonte também colocou que hoje as correntes mais importantes da esquerda mundial que se reivindicam ou têm suas origens no movimento trotskista está em crise, apesar das condições estarem mais favoráveis para a extrema esquerda. Cremos que isto é devido à busca de fazer partidos amplos construídos sob os espaços eleitorais e com figuras midiáticas, sem fazer um trabalho orgânico nos sindicatos e no movimento estudantil.
Diferente destes partidos o PTS pode se desenvolver, porque, apesar de sua debilidade, interviu na crise de 2001 a partir de um setor orgânico da vanguarda operária, o que nos permitiu ter a experiência de Zanon, que hoje ainda se mantém como exemplo para a vanguarda operária internacional. Cremos que esse trabalho estrutural em um setor do movimento de massas, no caso do PTS na classe trabalhadora (o PO, a sua maneira, o fez desde o movimento piqueteiro, além de nossas diferenças), é o que explica, por exemplo, que o PTS tenha um papel destacado no fenômeno do sindicalismo de base, e que, como mostrou a FIT nas eleições, a extrema esquerda depois de muitos anos tenha entrado na cena política nacional.

Ainda que em uma escala distinta, esta é a realidade de todos os grupos irmãos que integram a Fração Trotskista - Quarta Internacional, como mostra a intervenção dos companheiros do Classe contra Classe no Estado Espanhol, dos companheiros da LER-QI no conflito das USP e sobretudo dos companheiros do PTR no Chile que vem sendo parte da enorme luta do movimento estudantil, lançando uma agrupação que tem buscado desenvolver o trotskismo em um país com longa tradição do PC. Mas o principal problema que enfrentamos não é do desenvolvimento de nossa tendência internacional. A chave é apostar que nestas novas condições surjam alas radicalizadas dos grupos trotskistas, do movimento operário e da juventude, que possamos confluir no objetivo estratégico da reconstrução da Quarta Internacional.

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