Quinta 25 de Abril de 2024

Teoria

UMA CONTRIBUIÇÃO PARA UMA DISCUSSÃO ESTRATÉGICA A PARTIR DAS "LIÇÕES DE OUTUBRO" DE LEON TROTSKY

Tática e estratégia: a preparação dos revolucionários para grandes viragens históricas

11 Aug 2011   |   comentários

A crise capitalista vive seu terceiro ano e volta a mostrar sua profundidade com as últimas negociações sobre o pagamento da dívida norte americana. As saídas implementadas são paliativos no marco de uma crise estrutural do capitalismo o que reatualiza o período de crises, guerras e revoluções. Como revolucionários devemos nos preparar para todos os cenários que se abrem desde 2008, e que agora se aprofundam com a maior queda das bolsas no período, assim como com a possibilidade de default de países como Grécia e Espanha. Os processos revolucionários no mundo árabe também mostram como a atualidade da revolução permanece em nossos dias, redobrando a necessidade de uma estratégia para vencer e superar toda a degeneração social que pode advir de alternativas burguesas, que tentam fazer com que os trabalhadores paguem pela crise.

Após anos de ofensiva burguesa sobre o proletariado, ofensiva objetiva com a restauração do capitalismo no Leste e o neoliberalismo, e também subjetiva “exorcizando” a idéia de classe, revolução e um partido revolucionário, esta situação fez sumir da orientação e até da reflexão do marxismo a necessidade de preparar-se para vencer, para esmagar o inimigo. Isto já havia ocorrido antes da primeira guerra mundial, mas ocorria porque o marxismo havia se degradado com a perspectiva de mudanças graduais. Foram as grandes revoluções de 1905 e 1917 que mudaram esta perspectiva.

É com a perspectiva da tomada do poder pela classe operária organizada num partido revolucionário que Lenin e Trotsky voltaram sua atenção para a necessidade de dominar a guerra e a insurreição como arte. Antes de 1914, no marco da socialdemocracia, não havia a preocupação de como dominar a “arte da guerra”, no sentido do objetivo político do aniquilamento do adversário, a burguesia, tarefa que passa a ser colocada com a revolução de 1917. Assim que esses grandes revolucionários se apropriam do ponto de vista marxista da teoria da guerra de Carl Von Clausewitz, general prussiano, que formulou sua teoria sobre a guerra pensando em Estados Nacionais e como constituir sua Prússia em nação dominante da Europa. Também em “Lições de Outubro” Trotsky não hesita em se apropriar criticamente desta teoria que desenvolve uma dialética de meios e fins:

“A concepção da estratégia revolucionária ganhou raízes apenas depois da revolução de 1917, na Internacional Comunista e no começo indubitavelmente sob a influência de uma terminologia militar. Mas isto não quer dizer que ganhou raízes acidentalmente. Antes da guerra falávamos apenas das táticas do partido revolucionário; essa concepção era suficientemente adequada aos métodos sindicais e parlamentares então predominantes que não ultrapassam os limites das tarefas e reivindicações do dia a dia. Por concepção tática entendemos um sistema de medidas que servem a uma tarefa corrente ou a um simples ramo da luta de classes. Estratégia revolucionária, ao contrário, abarca um sistema combinado de ações que, juntas, por sua consistência e crescimento, devem levar o proletariado à conquista do poder”1.

A relação entre tática e estratégia nunca se dá de maneira estanque, separada uma da outra. Toda tática está subordinada a uma estratégia. A estratégia seria a arte de conduzir todas as táticas no sentido da vitória. “A estratégia seria o plano para dirigir uma campanha militar e a tática o plano para dirigir uma batalha. Uma campanha está composta por diversas batalhas, as batalhas são táticas com respeito à campanha militar.”2 Aos revolucionários, a estratégia política da tomada do poder pela classe operária, que significa o objetivo político do aniquilamento do inimigo (no caso a burguesia e seu estado burguês), não se desenvolve apenas no momento de uma insurreição vitoriosa propriamente dita. Esta que seria “a tática das táticas”, mas na condução de cada combate que, juntos, levam ou se aproximam e preparam em organização, moral, programa, consciência. Se para a guerra o combate é fundamental, à conformação de um partido operário revolucionário também o é no sentido da preparação de uma camada de quadros que devem se forjar em cada combate, sendo o combate a essência do partido.

Portanto, cada conflito em que os revolucionários podem militar junto aos trabalhadores deve ser visto como “escolas de guerra”, no sentido que Lênin adotava a este termo. Isso significa que os conflitos devem ser encarados como escolas de comunismo aos trabalhadores, para que eles avancem da luta econômica em si para uma luta contra o patrão, contra a empresa, contra o governo. Assim, os trabalhadores devem exercer, por todas as vias possíveis, a necessidade política de se colocarem como caudilhos das demais classes subalternas na construção de uma sociedade sem opressão e exploração.

O que embasa esta visão é o domínio dos revolucionários da guerra como a continuidade da política por outros meios, definição esta elaborada por Clausewitz. “A guerra (...) surge sempre de uma situação política e só resulta de um motivo político. Aí está por que a guerra é um ato político.”3 Assim a intenção política dos revolucionários é o fim, ou seja, a tomada do poder pela classe operária, e a guerra é apenas um meio para este. Se Clausewitz é um general prussiano e sua reflexão política coloca a necessidade da conformação de estados nacionais burgueses, aos revolucionários a estratégia está na luta de classes - esta que não cessa entre um combate e outro, tampouco cessa com a tomada do poder pela classe operária. Entendida a separação de classe entre as perspectivas de um general prussiano e a dos revolucionários, faz-se necessário diferenciar a dinâmica distinta entre uma revolução burguesa e uma revolução proletária.

Diferente das revoluções burguesas, que partiam de bases econômicas já desenvolvidas nos países e num relativo automatismo orientado à acumulação capitalista – razão pela qual o capitalismo se desenvolveu e triunfou tanto em governos ‘burgueses clássicos’, quanto em governos autocráticos, monarquias semi constitucionais, etc. – na revolução proletária essas bases econômicas exigem mais do elemento consciente. O Estado que emerge de uma revolução burguesa tem como base de sua economia a anarquia para sugar a mais-valia do operário, as próprias mercadorias e capital cumpriam o papel de “demiurgo” para a burguesia. Se a burguesia mesmo em seu período revolucionário era uma classe detentora (e por isso tinha interesses imediatos conversadores), o proletariado é uma classe que não detém nada, sua localização na produção, bem como seus interesses, exigem uma ação consciente. Seus objetivos positivos se chocam com um inimigo mais forte em posições e idéias que contaminam a própria classe. Por isso a sua preparação exige consciência. A concretização positiva (ofensiva) de seu objetivo a tomada do poder, a ditadura do proletariado, também traz consigo a necessidade do planejamento consciente da construção de uma nova sociedade.

Visto o elemento superior consciente da revolução proletária, os revolucionários tem que dominar a guerra e sua preparação como arte. Como alertava Trotsky, na luta política interna no próprio partido bolchevique frente à direção da insurreição de outubro, e aos setores da ala direita do partido que eram contrários a esta4: “a indiferença pelos problemas relativos à insurreição armada testemunha a força considerável que ainda conserva entre nós tradição social democrata. Certamente sofrerá uma derrota o partido que considere de modo superficial as questões da guerra civil, com a esperança de que tudo se desenvolverá por si só no momento necessário.”5

Se hoje não está colocada uma situação da tomada do poder pela classe operária, esta tarefa se coloca de maneira preparatória às organizações revolucionárias. Trotsky alertava como cada viragem histórica carrega em sua vanguarda consciente um alto grau de conservadorismo, visto que um partido sempre está exposto a pressões das distintas forças políticas. Em cada período o desenvolvimento de um partido revolucionário cria os meios para combater e resistir a essas pressões, porém sua fortaleza na preparação pode ser o conservadorismo para a ação. Em giros táticos importantes esta resistência se vê fortalecida, o que torna fundamental a ligação orgânica do partido com as tarefas históricas de sua classe. Caso contrário, o partido pode se conformar como instrumento das demais. Mais forte se faz esta pressão num giro estratégico, ou seja, quando o partido deixa de ser de propaganda e ação revolucionária para se transformar no partido da revolução e ter que lidar com os problemas concretos da tomada do poder: “Se a viragem foi demasiado brusca ou inesperada e se o período anterior acumulou com excesso elementos de inércia e de conservadorismo nos próprios dirigentes do partido, este se mostra incapaz de exercer a direção no momento mais grave, para o qual havia se preparado durante vários anos ou décadas.”6

Os revolucionários devem se colocar a tarefa de se preparar para grandes embates da luta de classes, nos quais a classe operária deve lutar por sua centralidade e hegemonia diante das demais classes subalternas. Porém, sem um partido revolucionário - o fator mais consciente da organização proletária, almejando a destruição do estado burguês e a construção da ditadura do proletariado - a classe operária, por mais valente que seja, pode acabar em novos desvios ou derrotas. A preparação dos revolucionários para essas grandes viragens históricas deve se dar desde já para que sejam capazes de conformar um estado maior da revolução e preparar futuras vitórias.

Este é um desafio colocado a todos os revolucionários ainda mais quando a estratégia da revolução proletária é aniquilada da estratégia política, como faz a direção do NPA francês, um partido que abre mão da ditadura do proletariado para “levar a democracia até o final” e hoje constrói um partido amplo sem delimitação de classes (assim como sua variável brasileira com o PSOL); ou esta estratégia coloca-se por fora da preparação sistemática de uma vanguarda na estratégia da tomada do poder, como faz o PSTU. Os distintos graus em que cedem à pressão da democracia burguesa expressa a adaptação da esquerda à democracia burguesa. Quando a disputa por cargos eleitorais e/ou a vitória de direções sindicais se dão por fora da estratégia da tomada do poder pela classe operária, reproduzindo, em profundidades diferentes, uma estratégia de desgaste, contrariando a preparação no sentido da estratégia da tomada do poder.

É preciso preparar-se para vencer. A construção de um partido revolucionário, internacionalista no Brasil exige desde já medir-se frente ao que a situação mundial exige e exigirá, tomar cada conquista tática como um meio a nossa estratégia que é aniquilar a burguesia. Hoje, mais do que nunca, a preparação dos trotskistas em tomar as lutas dos trabalhadores e da juventude como “escolas de guerra” é um passo fundamental inseparável do avanço na reflexão estratégica e programática que mais e mais situações convulsivas no mundo colocam.

1- Stalin, O Grande Organizador de Derrotas – Leon Trotsky
2- Um debate sobre estratégias, Emilio Albamonte
3- Da Guerra, Clausewitz
4- Trotsky, assim como Lenin, combatiam o setor da direção do partido bolchevique que apostavam numa conferência democrática dos soviets contrários à insurreição pela classe operária
5- Lições de Outubro, Trotsky
6- Idem

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