México

Por trás do regime assassino, estão os planos recolonizadores dos Estados Unidos

17 Nov 2014   |   comentários

O governo dos Estados Unidos, através da porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki, fez um urgente chamado ao governo mexicano e aos milhares que se mobilizam pelos 43 estudantes de Ayotzinapa a “manter a calma durante o processo...”, ante o que considera como “crescentes tensões” em seu “pátio traseiro”.

Na quarta-feira, 12 de novembro, o governo dos Estados Unidos, através da porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki, fez um urgente chamado ao governo mexicano e aos milhares que se mobilizam pelos 43 estudantes de Ayotzinapa a “manter a calma durante o processo...”, ante o que considera como “crescentes tensões” em seu “pátio traseiro”.

Esta clara declaração intervencionista sobre assuntos internos de outro país mostra a histórica subordinação do pró-imperialista regime mexicano (seja durante o governo do PRI, ou em qualquer outro da alternância PAN-PRD), e ao mesmo é uma advertência às massas populares que ameaçam a estabilidade desta semicolônia que compartilha 3.000 quilômetros de fronteira com o imperialismo estadunidense.

É evidente a preocupação de Washington pela instabilidade que possa surgir em um país que, sob a subordinação ao imperialismo abriu suas fronteiras ao mercado transnacional com o TLC – deixando em crise o mercado interno e o campo – que desmantelou a economia nacional, terminando com as empresas estatais, privatizando os serviços e a seguridade social. E que aprovou reformas como a lei trabalhista que liquida direitos históricos dos trabalhadores em benefício das transnacionais; ou a lei energética, que atendeu a velha demanda dos Estados Unidos de abrir a PEMEX [Petróleo Mexicano] ao capital privado.

A instabilidade no México pode repercutir nos milhões de mexicanos emigrantes que vivem nos EUA que, ademais, te suas próprias demandas, como a reforma migratória que Obama prometeu e não cumpriu. A um debilitado Obama não seriam convenientes mobilizações encabeçadas com o grito “Fora Peña Nieto!”.

Mas também o preocupa porque o México é a ponta de lança para seus planos de recuperar sua hegemonia na América Latina, diminuída com o surgimento do bloco de países chamados “antineoliberais, que buscam certa margem de manobra para negociar em melhores condições com a Casa Branca. Já nos anos ’80, o governo mexicano se pôs a serviço da estabilização da região e dos interesses ianques, ao impulsionar o “Grupo Contadora” que conseguiu desativar o processo revolucionário em El Salvador e sua extensão na América Central, nos anos ’90, com o “Pacto de Chapultepec”.

Ante essa preocupação, no mês passado Obama pressionou Peña Nieto para que atendesse o caso do massacre de Tlatlaya elas mãos dos militares, pois era algo que danificava a imagem do principal sócio (menor) do imperialismo na região. Não obstante, os EUA não contavam com os acontecimentos do massacre de Iguala, que hoje deixam o país numa profunda crise política. Por conta disso, exige imperativamente que o governo resolva o que chama um “crime atroz”, assim como o respeito ao “estado de direito”.

No cúmulo do cinismo, os campeões em desestabilizar governos quando assim convém a seus interesses (e de acabar com o estado de direito) esquecem que, em 2011, o governo dos Estados Unidos intencionalmente vendeu armas de assalto aos cartéis mexicanos da droga para rastreá-las depois e situar seu paradeiro. Armamento que fortaleceu o poder de fogo e de desestabilização dos narcotraficantes mexicanos, causando milhares de mortos no país. Também esquece que treinaram os militares que estiveram à frente da repressão aos que resistem os planos do governo mexicano. Ações todas que são parte dessas tensões que hoje preocupam em Washington.

U pedido de calma difícil de conseguir

Apesar dos desejos imperialistas e sua soberba intromissão no processo de crise no México, é o cansaço desta democracia assassina e esfomeante que motoriza a mobilização dos milhares que saem às ruas a questionar o regime e suas instituições. Instituições que em 1999-2000 (a crise do PRI) Clinton aconselhou – junto aos principais partidos patronais da oposição – a maquiar uma aparente reforma do regime (transição pactuada “nas alturas”).

Mas hoje seu caráter reacionário e seu desgaste criaram na população trabalhadora uma grande desconfiança nos que os representam. Assim, é simbólica a queima dos edifíios públicos, de governo e das sedes partidárias patronais. A pradaria começa a incendiar-se e não é fácil apagar esta chama social.

Ainda que a mobilização de massas avançasse em sua consciência identificando a classe política como sua inimiga – Foi o Estado! Fora todos! Fora Peña Nieto! – falta ligar a política autoritária do PRI (apoiada pelo PAN e o PRD) aos planos de recolonização do colosso do norte.

Mas em um país avassalado pelos Estados Unidos, situações como a atual tendem a refrescar a memória histórica – invasão e roubo de mais da metade do território mexicano em 1847; ocupação de Veracruz em 1914; “expedição punitiva” em busca de Francisco Villa em Chihuahua em 1919 – e não pode descartar-se que o descontentamento popular, com a participação central do magistério combativo, avance em identificar a pressão dos planos de Washington para o México como a fonte do autoritarismo desta assassina democracia degradada. E então os símbolos do imperialismo comecem também a ser questionados.

A luta pelas demandas mais elementares – democracia; segurança; abaixo a militarização, à tortura e aos desaparecimentos forçados; salários e empregos melhor remunerados; respeito aos direitos trabalhistas; abaixo a entrega da soberania e os recursos naturais – está ligada a uma luta contra a entrega ao imperialismo.

Um programa que levante a independência econômica e política do país ante o vizinho do norte – ruptura de todos os pactos que atam o país ao imperialismo – é elementar para acabar com a miséria e o autoritarismo do PRI e de seus aliados no Congresso.

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