Quarta 24 de Abril de 2024

Internacional

O significado da proposta militar dos EUA contra o Estado Islâmico

07 Mar 2015 | Desde finais de 2014 os Estados Unidos vem protagonizando uma série de bombardeios ao Iraque e à Síria, alegando combater o Estado Islâmico. A brutalidade, o terror, as ações e ideologia fascista daquela organização possibilitaram o acordo geral da opinião pública doméstica e internacional aos bombardeios.   |   comentários

Desde finais de 2014 os Estados Unidos vem protagonizando uma série de bombardeios ao Iraque e à Síria, alegando combater o Estado Islâmico. A brutalidade, o terror, as ações e ideologia fascista daquela organização possibilitaram o acordo geral da opinião pública doméstica e internacional aos bombardeios.

Soma-se a isso o fato do Estado Islâmico prejudicar os interesses norte-americanos na região, pois além de ser um elemento que agrega tensões regionais, ainda se apossou de cidades que produzem grande quantidade de petróleo. Uma delas é Mossul, cidade iraquiana em que os membros do Estado Islâmico destruíram estátuas e monumentos milenares. Essa cidade produz cerca de 2 milhões de barris de petróleo diários. O Estado Islâmico também controla a planta de gás de Shaar e Baiji, onde está a maior refinaria de petróleo do Iraque.

Portanto, com a expansão dessa organização jihadista a máquina de guerra norte-americana se colocou novamente em movimento. Amparado por uma situação de recuperação econômica no plano interno, Barack Obama que havia se limitado até o momento a bombardeios aéreos, está propondo uma nova orientação militar, que envolve a possibilidade de ofensivas terrestres em casos específicos. Orientação essa que se soma ao fortalecimento de alianças regionais, cujos exércitos e milícias atuam como sua força no terreno de batalha. Dentre tais alianças há o fortalecimento da estabelecida com a Turquia, que prevê treinamento de 1200 efetivos com um programa que deve começar em março desse ano. Esse programa deveria expandir-se por três anos, e incluiria também outros apoiadores regionais dos Estados Unidos, como é a Arábia Saudita e a Jordânia, para chegar a 15 mil membros.

Financiar exércitos locais, milícias ou mesmo organizações terroristas para garantir seus próprios interesses, é uma prática imperialista antiga e amplamente conhecida. Assim foi quando os EUA financiaram a Al Qaeda, de Osama Bin Laden, contra a invasão da URSS ao Afeganistão. Não são poucos os que defendem que o próprio Estado Islâmico encontrou apoio e armas entre as alas mais radicais dos republicanos, como a liderada pelo senador John McCain, que esteve na Síria para dialogar com organizações que compunham a oposição ao regime. Dessa forma, não se pode descartar que como resultado dessa complexa situação, novas organizações hoje aliadas e financiadas pelos Estados Unidos emerjam num futuro próximo agregando complexidade à situação aberta, e ao que tudo indica, muito longe de uma resolução.

As dificuldades de banir operações de combates duradouras

Porém, ainda que priorize a utilização de tropas turcas e de demais aliados, Barack Obama apresentou em fevereiro ao Congresso norte-americano uma proposta para autorização de guerra, que legitime as ações contra o Estado Islâmico, que na verdade já vem sendo feitas. A diferença que consta na carta apresentada, é que Obama baniria o que chamou de “operações de combate duradouras”.

Trata-se de uma formulação abstrata para um propósito bastante concreto: o de ganhar o apoio daqueles que defendem uma guerra terrestre. Em outras palavras, na prática significaria um endurecimento da ofensiva imperialista sobre os países e os povos da região, mediante incursões terrestres de tropas especiais com a duração de até três anos, sob o pretexto de evitar que os conflitos se estendam.

Para financiar essa nova orientação militar, Obama solicitou a liberação de 8,8 bilhões de dólares, dos quais 5,3 bilhões deveriam ser aplicados pelo Pentágono no programa Inherent Resolve, no Iraque e na Síria. Ou seja, apesar de afirmar que guerras como as do Iraque e do Afeganistão da primeira década do século não se repetirão, o projeto antevê lacunas e ambiguidades que podem ser usadas de maneira ainda indeterminada.

As dificuldades de uma política desse tipo são evidentes. Em primeiro lugar, as incursões terrestres para serem breves como pretende Obama teriam que ser também custosas e altamente violentas. Também não resolveriam o problema do que ficaria depois, caso lograssem derrotar o Estado Islâmico na Síria ou no Iraque. No caso do Iraque poderia acirrar a insatisfação dos sunitas, ao ponto de exacerbar as tensões internas. A polarização promovida pelas milícias xiitas por um lado, e pelo Estado Islâmico por outro, não necessariamente cessaria com a retomada do controle de Mossul ou de Tikrit pelas tropas iraquianas, e menos mediante uma ação das norte-americanas. A política imperialista de fomentar a divisão entre esses dois setores pode dar lugar à formação de novas organizações que ameacem a viabilidade do Estado.

A própria aproximação dos xiitas iraquianos com os iranianos também é um ponto de tensão que não se resolve tão facilmente. Na Síria as possíveis incursões terrestres norte-americanas teriam ainda mais dificuldades. Isso por que a oposição moderada síria, para a qual os Estados Unidos sempre estendeu seus braços, sofreu uma importante divisão, com setores outrora parte do Exército Sírio Livre negando-se a se opor ao Estado Islâmico, o que dificulta ações limitadas, rápidas e apoiadas por forças locais como as prometidas por Obama.

Os reais interesses de Obama

Eleito sob a promessa de que acabaria com as guerras e ocupações que o imperialismo protagoniza no Oriente Médio, Obama manteve cerca de 2000 soldados no Iraque. Agora o sentido real da medida militar apresentada, para além de uma confissão velada de que não se pode ganhar uma guerra apenas com bombardeios aéreos, constitui-se como uma tentativa de ampliar a dominação imperialista sobre o Iraque e a Síria. Como o financiador de outrora de grupos como a Al Qaeda, o imperialismo norte-americano tampouco está preocupado com as vidas que o Estado Islâmico está tirando naqueles países, ou com a opressão que essa organização promove contra os povos da região. Os Estados Unidos são, ao lado das burguesias locais, os verdadeiros responsáveis pela existência e ampliação do domínio do Estado Islâmico. Não se pode descartar inclusive que essa orientação tenha como motivação secundária controlar também a ação das milícias do YPJ, que recentemente se tornaram célebres por terem imposto ao Estado Islâmico uma derrota importante em Kobane.

Nesse sentido, nenhuma resposta progressista pode vir das mãos do imperialismo, e de suas ofensivas militares. Como observou o analista Robert Fisk no jornal britânico The Independent: “O mesmo grupo de assassinos armados que enviamos ao Iraque vai ficar em liberdade para ensinar a nossos “aliados” na Síria – milícias seculares “moderadas”, certamente – as mesmas táticas viciosas que utilizaram contra a população civil no Iraque. E os mesmos mísseis serão utilizados – com enorme benefícios, naturalmente – nos povos do Oriente Médio, do EI ou não. É por isso que o relatório de De Luce seja talvez o mais importante de toda a guerra na região.” Esse é o “modus operandi” do imperialismo. E quem sofre com ela são as populações civis, sunitas ou xiitas, do Iraque e da Síria.

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