Internacional

O curso à direita do Syriza para governar com os capitalistas

03 Feb 2015   |   comentários

A lógica pragmática de que “vale tudo” para chegar ao governo levou o Syriza não só a moderar sua resistência às instituições européias (já que sempre se mostrou favorável a acordos que possibilitassem a permanência da Grécia ao conglomerado imperialista da União Européia), mas também a uma adaptação acelerada à burguesia grega e maiores concessões à direita. A mais notória foi sem dúvida a conformação de um governo de coalizão com a direita nacionalista e (...)

A lógica pragmática de que “vale tudo” para chegar ao governo levou o Syriza não só a moderar sua resistência às instituições européias (já que sempre se mostrou favorável a acordos que possibilitassem a permanência da Grécia ao conglomerado imperialista da União Européia), mas também a uma adaptação acelerada à burguesia grega e maiores concessões à direita. A mais notória foi sem dúvida a conformação de um governo de coalizão com a direita nacionalista e xenófoba dos Gregos Independentes (ANEL).

Os Gregos Independentes são uma ruptura à direita do tradicional partido burguês Nova Democracia, que combina um discurso “anti-resgate” e “anti-Troika” com uma ideologia nacionalista, xenófoba, antissemita, homofóbica e defensora da Igreja Ortodoxa, que declarou recentemente que a homossexualidade é “o pecado mais asqueroso e sujo”. O acordo fechado em tempo recorde pelo Syriza está baseado no respaldo a sua política econômica (o líder dos Gregos Independentes, Panos Kammenos, é contrário aos planos de austeridade como Tsipras), em troca de que o Syriza não aborde temas “sensíveis” ao partido de Kammenos. Estes temas “sensíveis” que o Syriza concordou em deixar de lado são as reivindicações fundamentais das mulheres e setores LGBT, os direitos dos imigrantes, o fim da opressão nacional grega sobre a Macedônia, a separação do Estado e da Igreja.

A preparação do acordo de Tsipras com Kammenos ocorria há meses; não à toa, o Syriza já havia abandonado do seu programa a reivindicação do matrimônio igualitário e o direito de adoção de filhos para casais homoafetivos, questões negadas pela Igreja Ortodoxa. Além do mais, presenteou uma organização que obteve apenas 4,5% dos votos com nada menos que o Ministério da Defesa, uma posição estratégica, de comando das Forças Armadas.

Diante da demanda massiva da juventude e da população grega de que se punam os agressores policiais que encabeçaram a repressão às manifestações contra a austeridade, o novo Ministro do Interior, Nikos Voutsis, disse que o governo do Syriza “não será revanchista” e “respeitará o trabalho da polícia”, independente de sua “orientação política”. Defendeu a “obediência devida” dos corpos policiais ao governo anterior, deixando implícito um discurso de impunidade. Esta alusão à orientação política dos policiais não é acidental: segundo meios de imprensa gregos, um de cada dois policiais de Atenas votou no partido neonazista Aurora Dourada em 2012, cujas relações com a corporação foram confirmadas por um relatório da Anistia Internacional, que denunciou os agentes policiais por violarem os direitos humanos de manifestantes e imigrantes.

Em um artigo publicado no dia seguinte à vitória do Syriza, Stathis Kouvelakis, integrante da “Plataforma de esquerda” dentro do Syriza (contrário à orientação de Tsipras), sustentou que a participação no governo de um partido como Gregos Independentes marcaria “o fim simbólico da idéia de um governo de esquerda anti-austeridade”.

Para essa “nova forma de fazer política” defendida por Tsipras a disjuntiva “esquerda/direita” não dá conta do cenário político atual (o mesmo que diz Pablo Iglesias do Podemos). Na Europa, seriam permitidas portanto alianças com partidos “anti-Troika”, independente do quão direitistas estes sejam em todo o seu programa. Uma engenhosa “novidade” política, que iguala socialmente todos os partidos no marco de uma única divisão: a favor ou contra o crescimento econômico nacional.

Esta estratégia reformista, centrada em buscar pactuar uma austeridade de novo tipo com a União Européia e a burguesia grega e neutralizar a luta da classe trabalhadora e da juventude, pode colocar o Syriza rapidamente dentro de sua própria armadilha. Seu compromisso de cumprir os acordos com os “sócios europeus”, respeitando o limite do déficit orçamentário e o pagamento da dívida contraída (nas mãos dos governos europeus e do FMI) limita enormemente as possibilidades de aplicar seu programa de “reformas”, por mínimas que sejam.

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