Nacional

José Sarney no centro dos escândalos

27 Jun 2009   |   comentários

Já se tornou difícil para o povo brasileiro acompanhar cada escândalo de corrupção que surge no Congresso Nacional. Favorecimentos e desvios de verbas de todos os tipos são, como indicam todas as evidências, o foco do “trabalho” dos nossos parlamentares. Com o PMDB na presidência do Senado e Câmara de Deputados e a disputa entre Lula e o PSDB para ver quem fica com o apoio do maior partido do Congresso, coloca-se ainda mais lenha na fogueira das denuncias.

O atual escândalo, o dos “atos secretos” do Senado, em que senadores através de decisões secretas se beneficiavam mutuamente com nomeação de parentes e outras benesses para amigos, atinge diretamente o PMDB no Senado, e a principal ala desse partido que apóia o governo Lula. A novidade da atual crise é que ela atinge em cheio uma das principais figuras políticas da burguesia desde a “redemocratização” : o ex-presidente José Sarney. Um salto de qualidade em relação à Renan Calheiros, que apesar de ter um papel importante no interior do regime, era uma figura desconhecida para a maioria da população.

No primeiro pronunciamento público no Senado, se defendendo das acusações, Sarney disse que a crise do Senado não tem nada a ver com ele, e que as pessoas deveriam respeitar a sua biografia. O presidente Lula, lá do Cazaquistão, fez questão de se solidarizar com Sarney, afirmando que ele não pode ser tratado como qualquer pessoa. De fato, Sarney não é qualquer um.

E ele tem muitos motivos para cobrar respeito nesse momento, pois sua lista de serviços prestados ao domínio da burguesia brasileira não é pequeno. Começou a vida política na UDN, depois do golpe ingressou no Arena, partido da ditadura. Com a abertura da ditadura e a formação de novos partidos, integrou o PDS, continuador do Arena. Mas sua grande jogada política foi abandonar o barco da ditadura e ingressar no PMDB, que liderava as mobilizações pelas diretas. Foi como vice de Tancredo Neves, morto antes de assumir, que se tornou o primeiro presidente civil depois de duas décadas de domínio dos militares.

Transição pactuada

Não é só por que são aliados neste momento que Lula defende a biografia de José Sarney. Quando Sarney era presidente, Lula estava no extremo oposto do espectro político, dirigindo as greves operárias contra esse impopular governo. No entanto, ambos faziam parte do mesmo pacto que deu origem a atual democracia dos ricos que conhecemos.

As greves do ABC entre 78 e 80 significaram uma ameaça de morte ao regime militar, que só foi afastada graças à política levada adiante por Lula e os sindicalistas autênticos, de manter a greve no marco da reivindicação salarial, sem colocar no centro a luta para derrubar a ditadura através de uma greve geral convocada pelos metalúrgicos do ABC. Depois disso, como principal referência de massas do PT, Lula levou os trabalhadores para o beco sem saída das “Diretas Já” , uma campanha levada adiante por setores democráticos da burguesia que defendiam a abertura do regime para manter o conjunto da dominação burguesa. Do outro lado, junto com Sarney, várias figuras da ARENA abandonavam o barco da ditadura, para defender a “redemocratização” vendo que era a única forma de manter o domínio da burguesia.

Esse foi o caminho que levou à Constituição de 88. Nesse processo coube a Sarney como presidente da República articular o famoso “centrão” , composto principalmente pelo PMDB, que em troca de favorecimentos mil do presidente (parecido com o que vemos hoje...), mantinham a Constituinte nos marcos aceitáveis para os militares, as grandes empresas e o imperialismo. Uma das mais aberrantes resoluções aprovadas por este “centrão” , sob o comando do presidente Sarney, foi aquela que garante o papel dos militares como garantidores na constituição em caso de desordem interna, isto é, seu direito a dar golpes militares para defender “a democracia” .

Ontem e hoje

Foi esse “centrão” comandado pelo Sarney que arquitetou o fundamental do funcionamento de nossas instituições, do Senado, Câmara e todas as demais. O PT cumpria o papel de impedir que as lutas operárias questionassem o que era decidido na Constituinte, enquanto encaminhava todas as aspirações do movimento de massas para a sua candidatura nas próximas eleições presidenciais.

Por isso só pode ser uma grande piada quando Sarney diz que nada tem a ver com a crise do Senado. Foi ele um dos homens fortes da burguesia na construção do Senado tal qual o conhecemos hoje!
Mas não nos espanta ver Lula defender Sarney em nome da sua biografia. Isso só mostra o quando já no momento da Constituinte Lula fazia parte do jogo da transição negociada com os militares. No entanto, os anseios que Lula representava na Constituinte não era o de uma mudança que mantivesse o poder nas mãos da burguesia. Os trabalhadores e o povo queriam mudanças substanciais nas suas condições de vida.

O mundo dá voltas e hoje Sarney e Lula, que antes ocupavam lados opostos de um mesmo pacto contra os trabalhadores, agora se dão as mãos sem nenhuma vergonha. Isso facilita a tarefa de desmascarar o governo Lula e luta pela construção de um novo partido de trabalhadores, que dessa vez não se detenha perante os limites impostos por burgueses como Sarney, mas que adote um programa revolucionário e vá até o fim na luta para derrotar a burguesia e o capitalismo.

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