Internacional

POLÍTICA EXTERNA DE LULA

Irã e Palestina: Pela paz ou pelo desarmamento dos oprimidos?

23 Dec 2009   |   comentários

Para fortalecer sua posição como líder regional com um suposto “papel a cumprir” nas negociações globais, o Brasil tenta se alçar como negociador entre EUA e Irã, e Israel e Palestina. No plano interno, a política do Itamaraty para essa região, provocou a gritaria da mídia burguesa e já se transformou num dos temas polêmicos da polarização eleitoral entre PT e PSDB. Um dia antes da visita de Ahmadinejad, no dia 23 de novembro, José Serra escreveu um artigo para a Folha de São Paulo, onde afirma que “é desconfortável recebermos no Brasil o chefe de um regime ditatorial e repressivo. Afinal, temos um passado recente de luta contra a ditadura e firmamos na Constituição de 1988 os ideais de democracia e direitos humanos. Uma coisa são relações diplomáticas com ditaduras, outra é hospedar em casa os seus chefes.” Quanto cinismo da oposição tucana! O que pode falar José Serra de democracia, quando a PM de São Paulo por ele comandada no estado vitrine das administrações tucanas, é conhecida mundialmente pelos assassinatos, torturas e desrespeito aos direitos humanos e quando ele é o governador que autorizou a militarização de uma universidade, relembrando os tempos da ditadura? Tanto para Lula, quanto para Serra ou para o imperialismo, a luta pela democracia ou pela paz, é apenas uma palavra de ordem utilizada quando é interessante para promover os seus interesses.
Lula recebeu em poucas semanas tanto o premiê israelense Shimon Peres, com o qual firmou acordos nas áreas de segurança (para aumentar o massacre contra o povo pobre e negro nos morros e favelas), como o presidente da Autoridade Nacional Palestina Mahmoud Abbas. Nestas reuniões se alçou como interlocutor, partindo de se posicionar contra os assentamentos israelenses na Cisjorândia e pela defesa de um Estado Palestino independente com capital em Jerusalém. Nada diferente de Obama. Mais ainda, com Abbas Lula posicionou-se clara e frontalmente contra o Hamas, classificando-o como “minoritário e sectário” e como quem “na verdade fomenta a continuidade do conflito”[1] . Para Lula é o Hamas o culpado pelo conflito e não o Estado de Israel, não os contínuos massacres, expulsão, confinamento do povo palestino por parte deste estado, não a política dos EUA e da ONU de apoio e reconhecimento do estado de Israel, mascarando atrás da fórmula aparentemente democrática de dois estados a manutenção da subjugação dos palestinos, que seguiriam confinados numa pequena parte do que era o seu território antes das guerras de ocupação de Israel. O exemplo de Lula para o povo palestino é a ANP de Abbas, que tornou-se dócil interlocutora dos imperialismo traindo a resistência palestina, da mesma forma que ele se tornou um dócil serviçal dos oligarcas e burgueses brasileiros, traindo a luta dos trabalhadores e do povo. O grupo Hamas, execrado por Lula, em que pese todos seus limites como uma direção burguesa e teocrática, é um dos únicos que segue sem reconhecer o Estado de Israel e que segue exigindo o direito ao retorno de todos os palestinos a suas terras natais, duas principais demandas da resistência palestina que já dura mais de 60 anos.
A eleição dos interlocutores e contundente delimitação com o Hamas mostram uma posição que não difere em nada da posição ianque para o conflito. A política de Lula permite única e exclusivamente que os EUA tenham um ator internacional não desgastado por nenhuma guerra ou possessão colonial como mediador para mediar o conflito usando suas mesmas posições, isto é claro, se o establishment americano quiser ou precisar limitar em algo as posições mais guerreiristas de seu aliado fundamental contra as massas no Oriente Médio, Israel. O posicionamento brasileiro frente ao Irã também não difere dos interesses estratégicos do imperialismo ianque. Enquanto Washington declarou ruidosamente seu descontentamento com a aproximação da Bolívia e da Venezuela com o Irã não mencionou, sequer, o Brasil onde o presidente daquela nação passou e a favor da qual o Brasil votou na AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). Se alguém tinha dúvidas se a política de Lula de votar em separado de Obama na condenação do programa nuclear iraniano seria um confronto com o gigante do norte, Arturo Valenzuela, sub-secretário americano para o Hemisfério Ocidental, em recente visita ao Brasil dirimiu as dúvidas. Declarou que “saúda os esforços do governo brasileiro em fazer com que o Irã atenda às determinações da AIEA”[2].
A retórica de Lula declarando que todos deveriam se desarmar para garantir a paz é somente retórica. Pois de fundo, como assegurou a Valenzuela Lula faz esta declaração ao vento de que todos deveriam se desarmar mas defende o Irã única e exclusivamente com seu uso pacífico da energia nuclear, e pede que assim como o Brasil o Irã respeite a AIEA, enquanto Israel está armado até os dentes, inclusive com ogivas nucleares, e diversos Estados imperialistas, também com armas nucleares, ameaçam o Irã. Tal como na Palestina posiciona-se contra o direito dos paises oprimidos de buscar os meios para se defender da agressão imperialista. É esta a posição e crédito internacional que Lula tem alcançado para o Brasil, o crédito de ser parceiro na subjugação dos povos.

[1] Estado de São Paulo
[2] O Globo, 14/12/09

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