Nacional

A USP na situação nacional

A greve da USP e a sucessão de Lula

27 Jun 2009   |   comentários

Nesse início de crise, Lula tem sido eficiente na sua política de pacto social com as principais direções do movimento de massas para fazer passar sem maiores turbulências as demissões, reduções salariais e cortes orçamentários necessários à burguesia para descarregar a crise nas costas dos trabalhadores. No entanto, essa estratégia está debilitada, pois depende de uma figura forte e todos sabem que Dilma Roussef não poderá cumprir esse mesmo papel. Não à toa setores na base governista e inclusive agências de notícias imperialistas embaralham a hipótese de um terceiro mandato para Lula, o que necessariamente só pode ser aplicado abrindo uma profunda crise no regime político.

Essa falta de um sucessor, apesar dos seus 80% de popularidade, obrigou Lula a adiantar em quase dois anos o calendário eleitoral, numa tentativa de consolidar a figura de Dilma, ou até mesmo de ir abrindo espaço para o terceiro mandato. Antecipando a luta pela sua sucessão abriu um processo de disputas entre os diferentes partidos e frações dos partidos, debilitando a capacidade de ação do seu governo, apesar da sua enorme popularidade e fazendo com que todos os outros conflitos políticos sejam potencialmente contaminados por essa disputa.

Assim, tanto nos estados como em nível federal, vemos uma série de disputas entre os partidos políticos que se enquadram no tabuleiro mais amplo da sucessão. No Congresso, os recorrentes escândalos de corrupção, assim como a CPI da Petrobrás e outras, se devem em grande medida à disputa entre PSDB e Lula, pela aliança nacional e nos estados com o PMDB, e entre o PMDB e PT por posições dentro de uma possível aliança em 2010. Da mesma forma a crise do governo Yeda no Rio Grande do Sul, que ainda não caiu pelos interesses do PMDB e de uma ala do PT, que se opõem à política de Tarso Genro.

O projeto do governador tucano José Serra é se consolidar como a principal candidatura presidencial de oposição e se apresentar à burguesia como o representante de um projeto alternativo ao de Lula, para fazer frente à crise capitalista em curso. Contra os pactos sociais e as concessões mínimas que Lula é obrigado a fazer para sustentar sua política, tucanos e DEM se apresentam como uma alternativa de maior endurecimento, de ataque direto aos trabalhadores de conjunto e ao funcionalismo público em particular. Seu projeto de conjunto inclui rever o conjunto das leis trabalhistas para aumentar a taxa de exploração dos trabalhadores, e pretendem fazer isso não negociando com os sindicatos, como Lula, mas atacando-os diretamente. Serra ainda não pode aplicar essa política de conjunto no estado de São Paulo, pois a alta popularidade do governo Lula expressa de forma distorcida o rechaço da maioria da população a essa política de maiores ataques. No entanto, precisa dar alguns exemplos de que uma vez eleito presidente terá a disposição de aplicar até o final o seu projeto.

A greve da USP como parte da disputa sucessória

A greve dos trabalhadores da USP, que começou no dia 5 de maio e que continuava de pé até o fechamento desta edição, seguiu durante quase um mês isolada, em função da política das centrais sindicais governistas (CUT, Força Sindical e CTB) que boicotam todo tipo de resistência organizada dos trabalhadores, e da impotência até mesmo dos principais sindicatos da Conlutas ’ dirigidos pelo PSTU ’ que se mostraram incapazes de oferecer uma resistência séria aos ataques da patronal, como ficou patente nas 4.270 demissões da Embraer em São José dos Campos. Por política consciente e por impotência, a greve da USP não contava com nenhum apoio dos setores organizados do movimento operário.

No entanto, a partir do momento em que o governo Serra terminou de se decidir em transformar a greve dos trabalhadores da USP num exemplo do que será sua política se eleito presidente, invadindo o campus universitário para reprimir os piquetes dos trabalhadores, o próprio PT entrou com força nesta disputa, com seus figurões e parlamentares petistas, como ficou expresso principalmente no debate com Antonio Cândido, do qual participou Marilena Chauí, uma das articuladoras da campanha petista para 2010 no estado de São Paulo. Os objetivos petistas neste processo são duplos. De um lado, enfraquecer a figura do governador Serra no estado que é o bastião tucano. De outro, conseguir uma maior cota de poder na maior universidade do país, que é administrada fundamentalmente pelas camarilhas tucanas. Porém, ao mesmo tempo em que pressiona por algum tipo de reforma interna na universidade, o PT evita qualquer passo adiante que possa provocar uma mobilização massiva dos estudantes, pois esta certamente fugiria ao seu controle.

Essa combinação de fatores, isto é, a heróica e exemplar greve de trabalhadores da USP, a política repressiva do governo Serra e a disputa em torno da sucessão, desatou um movimento democrático que abalou profundamente o carcomido regime universitário, provocou a entrada na greve de estudantes de várias faculdades, e de professores, fazendo a greve se estender por vários campi da Unesp e faculdades da Unicamp, tirando os trabalhadores do isolamento. As principais consignas motoras deste movimento democrático passaram então a ser fora PM e fora Suely.

Esse processo obrigou o governo Serra a retroceder de algumas posições para não sair mais prejudicado. Atrasou em um semestre a aplicação da Univesp e agora as camarilhas tucanas apontam para uma possível auto-reforma no regime universitário, para desviar o movimento que pede a cabeça da reitora e ceder cotas de poder para setores petistas e opositores, numa tentativa de fechar as disputas internas na burocracia acadêmica, que poderiam ser aproveitadas pelos estudantes e trabalhadores para fortalecer e massificar sua luta. Ainda está para se ver se retrocederá também na tentativa de desarticular o Sintusp e se manterá a demissão de Brandão.

Estudantes, professores e funcionários em luta, se não querem ser apenas massa de manobra na política petista de desgastar a candidatura de Serra, devem rejeitar qualquer reforma cosmética que não mude o essencial do regime universitário e que mantenha a reitora no cargo. Esse é o momento de seguir aprofundando a mobilização e cerrar fileiras na luta para expulsar a PM e derrubar a reitoria, incorporando agora a luta para derrubar também o antidemocrático Conselho Universitário e colocar no seu lugar um governo representativo dos três setores, com maioria estudantil. E iniciar a luta pelo fim do vestibular e por uma universidade a serviço dos trabalhadores e do povo pobre.

Uma mostra do que virá pela frente

A luta na USP e a polarização social que esta gerou de forma inicial, é apenas uma antecipação do que pode ocorrer num futuro próximo, numa situação que estará marcada pela disputa sucessória, que ao gerar uma importante divisão nos partidos burgueses pode potencializar as conseqüências políticas de processos de luta como no caso da USP, e pelos efeitos da crise capitalista que vai se aprofundar. A entrada em cena de parcelas do movimento estudantil pode estar antecipando a entrada em cena de batalhões importantes da classe operária conforme a crise se aprofunde. A recente greve dos Petroleiros já foi um pequeno exemplo do que pode estar por vir.

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