Movimento Operário

AS EXTRAORDINÁRIAS JORNADAS DE MAIO DA COB

A classe operária fez tremer a Bolívia

30 May 2013   |   comentários

Durante 15 dias, a classe operária da Bolívia empregou suas forças contra a Lei da Previdência neoliberal do governo de Evo Morales, que mantém o regime de capitalização individual eximindo de contribuições as patronais, que só contribuem com 3% a um “fundo solidário” claramente insuficiente.

Por duas semanas se estendeu a greve geral da Central Operária Boliviana em todo o território nacional, com bloqueios em 35 pontos do país e grandes marchas nas principais cidades. Com os mineiros de Huanuni e Colquiri na vanguarda, saíram dezenas de milhares de professores e trabalhadores da saúde em La Paz, em Santa Cruz, em Bení, em Potosí, em Cochabamba. Como não acontecia há décadas, os fabris de El Alto e Cochabamba paralisaram suas atividades e confluíram nas manifestações. A Praça Murillo, sede do governo central, foi rodeada consecutivamente durante três dias por dezenas de milhares de manifestantes que resistiram aos gases da polícia, em especial mais de 4000 mineiros de Huanuni que permaneceram na Universidade de La Paz quase uma semana de vigília. As consignas “Com gás, sem gás, mineiros em La Paz” e “Força companheiros, que a luta é dura mas venceremos”, ressoaram próximas ao palácio do governo.

Repressão e detenções

Não foi pacífico no “Estado Plurinacional” de Evo Morales. Houve mais de 400 detenções durante as jornadas de maio. Os fabris e professores de Cochabamba, onde em 2000 se desenvolveu a heroica “Guerra da Água”, enfrentaram a repressão em Parotani, e os de El Alto no bloqueio da Apacheta. Os mineiros de Colquiri se chocaram com as forças policiais em Caracollo. Os mineiros de Huanuni em Caihuasi se viram obrigados a dinamitar uma ponte para deter as forças repressivas enviadas pelo governo, que avançou com centenas de detenções. A liberação dos presos por lutar, outro exemplo da classe operária boliviana: conseguiu-se à força de mobilizações quando os mineiros ocuparam a praça de Oruro e obrigaram os fiscais a declarar sua liberdade.

Tremeu a Bolívia

Toda a Bolívia se estremeceu com as Jornadas de Maio da classe operária convocada pela COB. As corporações empresariais choraram as milionárias perdas de seus lucros para certificar que seus dividendos saem dessa classe que todos davam por desaparecida. A Igreja pediu para “terminar com a intransigência”. A polícia repressora aproveitou a situação para reclamar por suas próprias aposentadorias, sem por isso deter a repressão contra os trabalhadores. Deputados e senadores do MAS de Evo Morales ameaçaram declarar-se em uma ridícula greve de fome contra a greve da COB. E, em especial, o presidente Evo Morales, o vice García Linera, e o partido do governo, mostraram seu caráter anti-operário ante os olhos de milhões. “Uma quadrilha de trotskistas,” denunciou caluniosamente García Linera, “pretende um golpe direitista contra o processo de mudança”. Mas toda a Bolívia viu que, desta vez, não foi a oposição de direita e pró-imperialista a que pôs em xeque o governo de Evo Morales como nos anos anteriores, mas a força da classe trabalhadora, com a enorme tradição de luta da COB e sua coluna vertebral nos mineiros, a que desmascarou o atual governo, que posa de progressista das fronteiras para fora, enquanto aplica o sistema de aposentadoria consagrado pelo neoliberal Sánchez de Lozada.

 
Culminou uma primeira etapa, abriu-se uma nova situação

 
O resultado desta primeira investida não lança claros os vencedores nem os vencidos. O governo obtém, a seu favor, a desmobilização da COB em troca de um pré-acordo que se verificará em um mês. Obtém-se conquistas parciais como o rebaixamento de 35 para 30 anos de aposentadoria para os mineiros, uma demanda sentida em um setor que tem de expectativas de vida entre 50 e 55 anos. Assim também se restabelece (como no sistema de partilha vigente antes de 1996) a aposentadoria a 70% para todos os trabalhadores.

Demasiado pouco para as forças destacadas na luta, onde a direção da COB não esteve à sua altura. Levantou a medida, sem consulta prévia nas bases, quando novas forças se punham em movimento como com a paralisação universitária. Em especial, não respondeu ao argumento governamental de apoiar-se “nos que menos têm”, camponeses e trabalhadores autônomos que recebem a chamada Renda Dignidade de apenas 250 Bs (Bolivianos, moeda nacional), contra o que se teve de postular a reivindicação de uma renda universal para todos, 1200 Bs, que é o salário mínimo fixado pelo próprio oficialismo. Ou seja, a direção da COB não teve um programa nem deu uma luta para que paguem os capitalistas com maiores contribuições patronais e impostos que cubram o piso das necessidades operárias, camponesas e populares.

O principal triunfo operário é que começou a reconhecer, depois de décadas de refluxo e apesar dos limites de sua direção, suas próprias forças em combate e se colocou como oposição pela esquerda ao governo de Evo Morales. O ressurgimento da classe trabalhadora na Bolívia é um marco para todo o continente e um estimulante ao processo de formação do Partido de Trabalhadores baseado nos sindicatos da COB que se está gestando.
 

Uma nova perspectiva internacionalista

 
Desde que se impôs a restauração (contra-revolução neoliberal) capitalista nos anos 90, há 30 anos estamos submetidos a uma campanha ideológica para assinalar que a classe trabalhadora nunca poderá voltar a protagonizar jornadas históricas como a Comuna de Paris, a Revolução Russa de 1917 ou a grande revolução de 1952 na Bolívia. As jornadas de maio de mais de 15 dias de greve geral da COB boliviana mostram, pelo contrário, uma recomposição da classe operária que volta a postular-se como articuladora de todos os explorados e oprimidos que se enfrentam aos governos capitalistas. Esta recomposição da classe trabalhadora, que acaba de ter um marco na Bolívia, é internacional. Expressa-se também no continente europeu com grandes greves gerais contra a tentativa de descarregar a crise sobre os trabalhadores, no crescente emergir do novo proletariado do “pulmão do capitalismo” na China e na Ásia.
Há que preparar-se na perspectiva de grandes convulsões sociais alimentadas pela crise capitalista mundial, organizando as forças conscientes da luta anticapitalista, tanto nos sindicatos como no movimento estudantil, para criar forças afins à classe operária e convocando à unidade todos os movimentos sociais dos oprimidos, populares, ecologistas, feministas, a irmanar-se em uma causa comum para terminar com este sistema decadente junto à classe trabalhadora em todos os países.

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