Internacional

PARALISAÇÃO NACIONAL 10A

10A: Carta de uma operária da Alimentação

16 Apr 2014   |   comentários

A madrugada do 10 de abril se ia abrindo devagarinho, entre a escuridão e o brilho das chamas. Piquete de operários combativos, os bumbos ressoando na noite que se despedia, a bandeira do sindicato da Alimentação sobre minha cabeça, e para além, em cima, na ponte, as fileiras do aparato repressor, cães de Berni e de Cristina.

“A madrugada do 10 de abril se ia abrindo devagarinho, entre a escuridão e o brilho das chamas. Piquete de operários combativos, os bumbos ressoando na noite que se despedia, a bandeira do sindicato da Alimentação sobre minha cabeça, e para além, em cima, na ponte, as fileiras do aparato repressor, cães de Berni e de Cristina, com dois nomes: Gendarmería e Bonaerense [duas corporações policiais federais, NdT]. Não seria fácil. Nos olhávamos na escuridão, e pensávamos: “nos vão encher de pauladas”, “vão nos arrebentar”, e pelo ar voariam os volantes, os pacotes de mate, de erva, as bolachas, os celulares com as mensagens das pessoas que gostam da gente pedindo-nos que nos cuidemos.

“Vão nos encher de pauladas”. Isto vinha na minha cabeça. Todos com os corpos doloridos por nosso trabalho nas fábricas, correndo, tratando de amontoar-nos, nós, os operários, os estudantes, que talvez não temos tempo de treinar em uma academia, corremos, até ficarmos sem ar, olhando os jorros dos caminhões hidrantes dos servos da burocracia, nós, revirados na grama, lastimosos, sujos, os operários, o movimento mais forte do país, a força motriz que move a roda. Nós. E eles, os treinados para fazer-nos correr, para encher-nos os ouvidos de insultos, para arrebentar-nos a pauladas e chutar-nos como cães.
Assim é como o Governo quer ver a classe operária, arrastada a seus pés. Mas nós corremos, corremos e o amanhecer nos encontrou tomando uma das vias da Panamericana [principal via de acesso da zona norte industrial de Buenos Aires à capital federal, NdT], a outra via a tomaram eles, para reprimir-nos. A burocracia não cai presa. Daer, que desmantelou o sindicato da alimentação não vai preso, mas foi preso o companheiro gráfico, porque nos quiseram dar uma lição. Atiraram em nós com balas de borracha, nos impuseram seu medo, sua vergonha de servos inúteis, que não puderam com um punhado de loucos.

Não puderam. E quando se descuidaram, tomamos a outra via da Panamericana, para que aprendam que com os trabalhadores não se brinca. Mais de 300 efetivos que cumpriam ordens não tiveram o cérebro nem a inteligência que tivemos os operários para enganá-los. Um corte que esperavam desarmar em dez minutos os manteve com as mãos cheias até o meio-dia. Nunca poderão compreender nosso orgulho, nossa dignidade, porque são servos do estado.
Amanheceu, havia cheiro de mate quente, e como se não bastassem os abraços e a camaradagem, no céu, saiu o arco-íris. Os trabalhadores tirávamos fotos dele, e os policiais tiravam fotos de nós.
Esta jornada nos serviu para entender a urgência no discurso fervente da companheira que sempre nos diz: “camaradas, temos de organizar-nos, armar uma grande agrupação, formar o grande partido dos trabalhadores onde milhares de militantes operários saiam à rua para lutar”. Mostrar ao governo quem somos em essência. Ontem, apesar de que muitos de nós não tivéssemos experiência nestas situações, fizemos eles correrem, fizemos frente a eles, os esquivamos com inteligência e vencemos eles. Outro cantar seria se fôssemos milhares e milhares de operários nas ruas, não poderiam conosco, jamais. Do contrário, vão pisar em nossa cabeça, nos vão matar.

Ontem o arco-íris saiu, tímido primeiro, com suas cores assomando por trás das nuvens cinzentas, como nós, subindo a ponte. Depois brilhou, formoso e radiante, proletário o arco-íris. Debaixo, no final, estava o tesouro: estudantes e operários lutando pela revolução.”

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